19.2.15

Julieta no Veterinário .

Chego ao veterinário, com o Nico na transportadora, e à minha frente uma senhora, do tipo chorona, daquelas que falam em renhonhó, boas e queridas, sobretudo humanas, muito humanas e adoradoras de gatos.
Sento-me sossegada à espera de vez.
Atrás de mim 2 arrumadores de carros e um cão esperam a sua vez. Agitados e conversadores.
Ao meu lado senta-se uma rapariga com um mega cabelo afro. Adoro cabelos afros e acho que quanto maior mais espectacular, ainda assim começam a doer-me os rins por me ver obrigada a estar sentada num ângulo de cerca de 65 graus para evitar roçar no afro espectacular.
Uma senhora transporta o seu cão numa mala de viagem com o focinho de fora.
Um casal de gays e um gatinho muito fofo e muito branquinho e super mimado chegam e sentam-se mesmo atrás de mim.
A renhonhó saca do seu gatinho cá para fora e o casal de gays quer saber tudo. A renhonhó agradece e explica tudo, muito explicadinho. “Comeu um cortinado”. Ar pesaroso. “E agora vomita sangue”. Eu em ângulo de 65 graus para a direita, avanço o tronco ligeiramente para a frente porque agora os três estão em amena cavaqueira comigo no meio.
O casal tenta terminar a conversa mas a renhonhó decide partilhar fotografias da sua família felina. De acordo com o ar de espanto do casal acredito que tenha mais de 10 gatos.
A renhonhó sabe tudo de gatos e não se cala. E escova-os todos os dias.
Nos entretantos chega um grupo de pessoas, cada uma com um cão bebé ao colo, precisam viajar e de os vacinar. Na sala do veterinário começa-se então a discutir essa necessidade em países do espaço Schengen. Há uma voz que não sabe o que é isso de “Schengen”. Há explicações, dúvidas e certezas.
A sala está à pinha quando se ouvem uns barulhos estranhos.
Eu que já não posso dos rins, olho e vejo 3 pessoas surdas-mudas, que chegam do que parece o set do filme "Gato preto, gato branco", sendo que uma delas é cega, entrarem com 2 cães. 2 cães agitados e curiosos.
O grupo de 3 pessoas e um cão comunicam por gestos e bofetadas. Acredito que isto é verdadeiramente incrível porque sendo uma delas cega, surda e muda poder comunicar ainda que ao estaladão é notável.
O grupo das 3 pessoas olha em redor e escolhe os únicos lugares vagos. Ao pé de mim, sentada num ângulo de 65graus.
A pessoa cega, surda e muda senta-se ao meu lado, mas os seus companheiros não a avisam. Daí até eu levar a primeira estalada no braço não dura muito tempo. Aflita e com a pessoa a agitar-se e a trautear-me com os dedos, enormes, e a dar-me com o boletim de vacinas dos cães nas pernas começo a olhar para ela e a pensar como raio vou eu comunicar com esta pessoa. O que me vale é o grito de um dos seus companheiros de que eu não sou nenhum deles.
A pessoa cega, surda e muda para além de tudo é muito ciosa dos seus cães, se algum se afasta dá gritos de guerra. Um dos cães lembra-se então de se deitar aos meus pés.
Eu sentada num ângulo de 45graus, agora para a frente, para não levar nem estaladas nem roçar no afro espectacular, estou imóvel porque o cão aos meus pés assusta-se quando eu mexo um milímetro de mim e dá um salto. O seu dono sente, e começa a gritar sons de ordem guturais, o que agita sempre os companheiros e daí à amena cavaqueira, que se traduz em mais estalos e festas e dedilhar-se uns aos outros numa incrível língua gestual, é um instante.
Sentada, mordendo os lábios para não rir, imóvel por mais 1 hora e meia na cadeira, muito graças ao gato da renhonhó, que armado em tolo foi comer os cortinados que ela lá tem em casa, que, lógico, não podiam ser 2 panos de algodão, não, a renhonhó tem 15 gatos e vai e escolhe um cortinado de fitinhas… fitinhas engolidas pelo gato nº 7 que agora come e vomita.
Há momentos da minha vida que são filmes, são momentos como direi? Tarantinicos! Assim. De rajada. E eu fico para ali com aquela pérola na mão e penso que por muito se diga e escreva, nunca nada é tão mirabolante como a realidade.
E o que eu gostava de vos descrever isto e ser muito, muito politicamente incorreta? isso é que era!
Ah pessoas! Boa semana, gente!

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