6.9.13

Dona Julieta. 37 anos.

Exaspera-me.
Detesto que me tratem por Dona. Evito tratar seja quem for por Dona.
Assim que oiço "Dona Julieta" sou de imediato remetida para a casa das cintas fortes na praça do Chile. Toda eu encarquilho perante a visão de mim enquanto dona Julieta, velha e caquética com falhas de memória.

Claro que fazer 37 anos tem as suas vantagens e assim de repente enumero logo uma das mais importantes para mim. Exposição ao ridículo. É muito bom chegar a esta idade mais crescida, porque o ridículo passa a ser nosso aliado invés de ser uma ansiedade e uma limitação no nosso comportamento social.

É tão bom poder dizer o que nos vai na alma, poder fazer coisas e tomar atitudes que anteriormente, e do alto da nossa adolescência, sobretudo, nos limitava e tornava hirtos perante situações, com terror de cair no ridículo e sermos alvo de gozo, ou ainda pior, a vergonha alheia tão mal direccionada e a atingir quem mais gostava de nós.

Isto tudo para dizer que ando a lidar mal com isto da idade. Portanto estou em processo de "o melhor é não entrar em paranóias e gozar esta e todas as outras idades que ainda vou percorrer e lembrar-me que o tempo não volta para trás" ou " deixa de ser parva Julieta Emília".

Quando esta semana me vi no supermercado a comprar material escolar para a minha filha que já (JÁ?) vai fazer 6 anos (COMO? Se ainda ontem eu olhei para o teste de gravidez, se ainda ontem estava na minha barriga, se ainda ontem aprendeu a andar?), apeteceu- me fugir dali para fora, ir para um banco de jardim ou para a praia, kafekakiar por aí, experimentar roupa na zara e na bershka, preocupar-me em ter trocos para o cinema e cigarros, pensar onde vou sair na sexta, ouvir pixies em cassetes gravadas e regravadas... Ter outra vez 20 anos e conduzir o meu queijolas ( peugeot 205 mítico) e pensar como vou ter dinheiro para a gasolina e onde vamos passar o próximo fim de ano...

Na lavandaria insistem em tratar-me por Dona Julieta. Na lavandaria eu sou a única responsável pelas capas do sofá que levei para serem limpas. Sou eu que decido se aceito ou não o orçamento. Dentro da lavandaria tenho uma revelação mística, olho para mim, Dona Julieta, 37 anos, a única responsável por estas capas de sofá, e penso:" Cresci, caraças pá!"

- Dona Julieta, depois telefonamos quando estiverem prontas, não se preocupe vá descansada.

Dona Julieta. Sou de novo remetida para a casa das cintas fortes na praça do Chile com passagem pelas meias Ferrador. Eu de cinta, eu de cuecas altas de algodão, eu de meias de descanso... Esperem lá! Então e a epifania na lavandaria? 

Se tiver de enfiar o rabo numas cuecas altas de algodão, pois que seja assim mesmo, who cares? Assim como assim nunca fui de fios dental enfiados em locais estranhos e vendo bem as coisas cuecas altas de algodão sempre as tive... Apologista do conforto, fundamentalista do algodão, ridícula? So what? 

37 anos. Na boa, manos. Esta agora é a minha cena. Este ano tem que ser de mudanças. Novo cenário. Butes bazar aos 37 e aproveitar a vibe? Bora lá minha gente!



4 comentários:

  1. Tb n suporto o dona. E eu com 28 passo-me logo :)

    É menina faz favor! ;)

    Paulinha

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  2. Se te chateia o Dona imagina o que vais sentir quando os miudos que jogam à bola na rua te dizem: a senhora pode-nos passar a bola? A SENHORA??????????????? Qual senhora?????????????????? Não devo ser certamente com os meus 38 anos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Não me importo nada que me tratem por tu e muito sinceramente até agradeço. Senhora é a mãe do Jesus!!!!!!!!!
    Beijinhos
    Yolanda

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  3. Senhora Dona Julieta, aqui a cota que já vai na casa dos 40 está pronta para se juntar ao bando em fuga!
    E lembraste-me a brasileira que me iniciou nesta coisa da depilação total, que chamava ao fio dental "cordão cheiroso"... Blargh!
    :-$

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