5.3.14

E agora estou para aqui arrependida de dizer asneiras.

Na maioria das vezes só penso nas asneiras, não as digo em voz alta. Suspiro-as.

Escrevo-as é muitas vezes.

Uma vez li um comentário a um dos meus desabafos que me considerava exagerada.

Exagerada.

Exagerada quando já limpei centenas de vezes a mesma coisa e tenho que engolir a milésima vez sem queixumes. E a procissão ainda vai no adro.

Exagerada quando estou cansadíssima e ainda tenho que fazer tudo o que há para fazer numa casa de quatro e mais dois gatos. Pela milésima vez.

Exagerada quando rogo, quando imploro, após já ter desistido de explicar que não se devem portar mal, e que por favor se portem bem.

Exagerada quando me distraio, por estar a fazer tarefas de casa ou qualquer coisa para o trabalho (SIM TRABALHO EM CASA! E FORA DELA!) e não reparo que entretanto dois furacões varreram a casa em menos de segundos e tudo está removido, mexido, peganhoso, atirado, pisado, desleixado. Pela milésima vez.

Exagerada quando ainda nem são 9 horas da manhã e eu já disse para irem comer, para irem lavar os dentes, para se vestirem, isto tudo sempre com a minha ajuda, sempre com a ajuda do pai, e dois sacos amorfos ficam para ali a olhar para nós sem se mexerem, ou então aos saltos, e aos gritos, como se nós nem ali estivéssemos. Todas as manhãs. Todos os dias. Todas as vezes.

Exagerada por querer que se portem bem no supermercado. Por querer que não mexam nas coisas quando vão a uma loja. Por querer que não gritem. Por querer que não se atirem para o chão. Por rogar que não desatem a correr rua fora. Que tomem atenção. Que não trepem porque podem partir os dentes. E elas trepam. Sempre.

Exagerada por sonhar com um dia de praia em que não tenha que estar constantemente de sentinela, e não é a sentinela natural de garantir que não se afogam, é a sentinela e o policiamento para que não se sujem, para que não tirem os brinquedos a outras crianças, para que não atirem areia para os estendidos ao sol, para que não pisem as toalhas dos outros. Pela milésima vez.

Exagerada porque grito.
Exagerada porque escrevo asneiras em modo desabafo.
Exagerada porque o que está a dar é aguentar e calar. E eu não aguento nem calo.
Exagerada porque dou uma palmada.
Exagerada porque grito.
Exagerada porque grito.
Exagerada porque as posso traumatizar com os meus berros e as minhas preocupações.
Exagerada por querer que me oiçam.

Exagerada.

A novidade é que vou continuar a ser exagerada. Vou continuar a gritar. Vou continuar a escrever asneiras. Sempre.

Exagerada porque acredito que todos os berros que eu der agora ecoarão um dia mais tarde e elas se farão mulheres. Às direitas.

Agora vou ali exagerar.
Boa semana, gente!

7 comentários:

  1. Foi mesmo isso que pensei mesmo antes de ler a tua conclusão.
    O exagero é provavelmente o que fará a diferença entre elas serem pessoas educadas ou não.
    Exagera e por aqui podes carregar nos esse's à vontade que a gente gosta e farta-sssse de rir! ;)

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  2. Adorei o desabafo.
    Não sou daquelas que escrevem comentários a criticar quem é tudo "nuvens branquinhas, fofas (...) amaciador da roupa, algodão", até porque quando vou espreitar blogues quero uns minutos de prazer, paz, coisas bonitas, inspiração.
    Mas adoro o a autentidade do Afonso, o cão de loiça.
    Identifiquei-me com o post. Uma exagerada igualmente me confesso.

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  3. CB eu também gosto de ver e ler coisas bonitas, eu adoro rosa e verde menta, fico é muitas vezes a pensar que estou rodeada de coisas tão perfeitas, caramba serei só eu que por vezes, tantas vezes me "imperfeito"? Obrigada pó estar aí ;)

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  4. Julieta não está sozinha, estou sempre a ameaçar inscrever o meu filho (já 9 anos) no Chapitô porque ele trepa para cima de tudo desde pequenino. Ele sobe para cima da porta da cozinha para chegar às bolachas e às vezes até vai para cima do móvel despensa comer. Quando recebo um telefonema de trabalho e tento esconder-me no meu quarto que é a única parte da casa onde nãohá tanto barulho é certo que o miúdo e a miúda (já 8 anos) vão para lá berrar, brigar ou saltar de cima da cómoda para a cama a tentar tocar no candeeiro do tecto. Lojas ? Outro dia estavam a despir um manequim e quase o desmontavam. E ó se eu prego as boas maneiras e tal mas chega sempre a um ponto em que lá perco a compostura e mando um berro (ou dois). Toda a minha solidariedade para a Julieta.

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