4.3.14

A missão.

Depois há aquelas pessoas, quase santas, que nasceram para educar criancinhas, que adoram criancinhas, que vibram com o pacote completo.
Gravitam em nuvens branquinhas, fofas, são sempre muito fofas, tudo é branco, tudo é amaciador da roupa, algodão e sol, sol e nuvenzinhas. Arranjos de flores rosa contra fundos verde menta.
Todos juntinhos de mãos dadas, estes santos que nasceram para ser paizinhos e mãezinhas, que caminham com pézinhos de fada.
Gente da missão.

Depois há os tipo-eu.

Que se descabelam, que gritam, que guincham, que se enervam, que perguntam o que é preciso fazer para aprender a lidar com o circo em que se enfiaram, com o circo que gerem, à conta de muito pó e lágrimas, e risos histéricos, e truques de malabarismo para não endoidecerem nem endoidecerem ninguém.
Que se perguntam onde vai isto parar.

O que raio fazem aquelas almas da missão, tipo os vizinhos de baixo, que nunca gritam, nunca se descabelam?

Onde estão as minhas nuvenzinhas, o meu algodão, as cenas fofinhas e fofíssimas?

Eu, que ontem quase ensandeci. Eu que ontem ao telefone, com quem tinha mesmo que falar, quase virei a loja do avesso para controlar duas criancinhas histéricas, ensandecidas, em nuvens sim, mas de trovoada em modo infanto-terrível!

- Julieta, dizes muitas asneiras, pá! Se calhar não devias usar tanto a palavra com ÉFE!

 - Qual, pessoa? A palavra "FODASSSSSSE" (aquela que sei que se escreve com hífen mas insisto em escrever toda pegada para que a percebas bem, pessoa?), a EFE Ó DÊ Á ESSE É? Ah sim se calhar não devia, não devia... é um ponto de vista, de facto... traz-me então a nuvenzinha onde gravitas e pode ser que eu também passe a ser 100% algodão... ou não!

Ontem vi-me ao telefone, agarrada ao braço de uma criança que insistia em passear-se pela loja com um saco que nos foram entregar, cheio de febras e arroz, que encomendei para o almoço de suas excelências.

Eu ao telefone a ouvir que ando distraída no meu trabalho, (um dos dois, que um não chega!), e que isso não pode continuar, eu com vontade de gritar e chorar, eu aflita, tão aflita, e as minhas criancinhas que deviam ser fofas, tão fofas a deitarem abaixo a loja, a fugirem pela rua fora, a atirarem com as aguarelas que horas antes tínhamos comprado na loja dos chineses:

- Ó mãeeeeeeeeeeeeeeee isto é que é a loja dos chineeeeeeeeeeeeeeeeÊS?

Assim mesmo na cara do homem. Assim mesmo eu enfiava a minha num buraco qualquer.

O saco das febras a ser sacudido pela loja, eu ao telefone, umas mãos negras de água suja de aguarela, unhas tão encardidas, negras de tinta da loja do chinês, assim mesmo, loja adentro a pingar tudo, a minha cara colada ao telefonema que não podia ser ignorado, as lágrimas a saltarem-me, as febras, eu agarrada ao braço de uma, a tentar lavar as mãos da outra, pessoas a entrar na loja a pedirem nada, "Olhe que a criança já lá vai!", as lágrimas a começarem a descer cara abaixo, as febras e as aguarelas, " A Julieta anda distraída, somos exigentes, sabe isso, não sabe?" As lágrimas...

Páaaaaaaaaaaaaaaaarem jáaaaaaaaaaaaaa!

Como é que não se grita?
Como é que se controlam os constantes desafios com os quais somos brindados a cada segundo pelas amorosas criancinhas?

Ás vezes não me apetece. Serei só eu?

Ás vezes, pessoas, a minha vontade é não gritar mais, desleixar-me, querer lá saber, querem atirar com as febras? Atirem! Be my guest! Banho de água negra de pincéis sujos? Bora lá eu mergulho também! BORA LÁ! Não comam, não tomem banho, sejam malcriadas, tirem macacos do nariz, colem-nos onde quiserem, destruam os três mil brinquedos que vos comprámos, com o dinheiro ganho no segundo trabalho, que um só não chega, sim, façam o que quiserem!

- Julieta, dizes muitas asneiras, pá! Se calhar não devias usar tanto a palavra com ÉFE!

- "FODASSSSE" se calhar tens razão! Vou pensar nisso! Hoje não me apetece!

Hoje não me apetece. Hoje quem gravita sou eu. Hoje estou tão fofa, tão fofa! São 22:34 e eu estou há meia-hora em silêncio porque as minhas filhas já estão a dormir!

Foda-sssssssssssse e sabe tão bem!

Até amanhã, gente!

2 comentários:

  1. Os meus pesames, mas sou exactamente igual a ti.. F O D A - S E .. com tracinho páh!

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  2. Eu sei que não se deve... Percebo-a tão bem. Também grito, digo palavrões e ás vezez também não me apetece nada, nada aturar as criancinhas.

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