26.9.12

Martelos pneumáticos e relógios de cuco

A5, Cascais-Lisboa, qualquer minuto entre as 09h00 e as 09h30, 4 pessoas dentro de um carro, 2 delas crianças, rádio sintonizado na Antena 3, como este, muitos mais carros, muitos mais… centenas, pára-arranca, pára-arranca… neura, neura, neura!
A minha cabeça dói-me, aquela moinha intercalada com pontadas à séria mesmo no meio da testa, estou com tosse, moinha a virar enxaqueca, MARTELOS PNEUMÁTICOS enfiados bem fundo em cada ouvido era pouco perante isto…!
-Quero água!
- Quero fazer xixi!
- O sol está-me a bater nos olhos!
- Vão caladinhas, vá lá por favor!
- Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua!
- Oh Mercês quando chegarmos à escolinha logo bebe água!
- Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua!
- Por favor Mercês! A mãe aqui não tem água! – Aquela dor de cabeça a picar, a picar, a picar!
- Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua! Auáua!
- OH MERCÊS! POOOOOOR FAVOOOOOOOOOOR! – A minha cabeça a vibrar, a vibrar, a vibrar!
- Pé! Pé! Pé!Buaaaaaaaá! Buaaaaaá! Aiiiiii oh “mãiiiiiiiiiiiiiiii!! Oh mãiiiiiiiiiiiiiiii! Pé! Pé! Pé!
O que pensarão nos outros carros as pessoas que passam por nós e veem uma mulher, ainda nova, coitada, a esbracejar, enlouquecida: “Epá calouuuuuuuuuuu! CALOUUUU! Não há água! NÃO HÁ ÁGUAAAAAAA! ARGGGggggaarGHGDFFTSDYG CWEHJG! EU NÃO VOU VIRADA PARA TRÁS COM UM BRAÇO TODO TORTO A AGARRAR UM PÉ DA MERCÊS, EU NÃOOOOOOOOOO VOUUUUUUUUU!! NÃO, NÃO, E NÃO!
Chora a mãe, choram as filhas, grita o pai! A mãe descabela-se e grita desalmada, vidro do carro escancarado: “ Não me piquem os miolos! Estão-me a picar os miolos! Cucucucucu!” E no rádio músicas portuguesas parasitas, “Toda a gente sabe que os homens tralaráaaaaaa, tralaráaaaaa! (a música é gira, mas dura e dura e fica toda a tarde a martelar-me na cabeça! Desespero, desespero!), e a minha cabeça vibra, vibra, vibra! Cucucucucuc! “Oh mãiiiiiiiiiii! Oh mãiiiiiiiiiiiiii!”
Isto e um martelo pneumático é igual, TRuruRRUuuuuRUUuuu!TruuuRRUUuuu! Um buraquinho no alto do cucuruto e martelinho em funcionamento é igual!
Cucu! Cucu! Cucuuuuuuuuu! O cuco a picar-me os miolos vai dar ao mesmo!
- Oh mãiiiiiiiiiiiii! Oh mãiiiiiiiiiiiiiiiiii! A pê caiuuuuuuuu, a pê caiiiiiiiiiiuuuuuuuuuu! Oh mãiiiiiiiiiiiiiiiiii!
- Oh mãe a chucha da Mercês caiu, apanha lá vá lá!
- Eu não consigo! Por favor! Ainda bato noutro carro! Eu não me posso virar para trás!
- Oh mãiiiiiiiiiiiii! Oh mãiiiiiiiiiiiiiiiiii! A pê caiuuuuuuuu, a pê caiiiiiiiiiiuuuuuuuuuu! Oh mãiiiiiiiiiiiiiiiiii!
(Não caiu, na maioria das vezes a minha querida criança atira-a, vezes sem conta, para o chão!)
- ARG! PORRA! PÁ! Caiu? Ai caiu? Não tarda a chucha voa! Voa lá para fora e sou eu que a atiro janela fora! ARG! PORRA! PÁ! E depois temos pena! TEMOOOOOOOOOS PENAAAAAAAAA!
Pica miolos! E o martelo pneumático! Pica miolos! E o martelo pneumático! Pica miolos! E o martelo pneumático! Pica miolos! E o martelo pneumático! Pica miolos! E o martelo pneumático… “Toda a gente sabe que os homens tralaráaaaaaa, tralaráaaaaa!" Aiiiiiiii!
SOCOooooooooRRO!
Chegadas à porta da escola, estão calmas, serenas, felizes, uma ranhoca a denunciar uma birrita, mas nada de alarmante e eu feita em brita, pedras duras que nem cornos que o martelo pneumático desfez em mil bocados, uma neura, uma dor de cabeça, cuCUcuCUCUCu!
E arrasto-me, e ainda nem são 09h30!
Se um dia enveredar por uma profissão que me obrigue a estar agarrada a um martelo pneumático, garanto-vos que não necessitarei de protecções para os ouvidos! Nessa altura o som do martelo será apenas uma "Quinta Sinfonia", CucucucuCUUcuucucuCucuc! O cuco por essa altura fará conjunto com o monte de brita! CucucuCUUccUU! Arrrrrrrg!
E ainda nem são 09h30! E mais logo faremos todo o caminho de regresso! TODO!
SOCOooooooooRRO!

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